Entrevista: Fábio Moon e Gabriel Bá

Se você costuma ler quadrinhos e ainda não leu nada de Fábio Moon e Gabriel Bá, está devendo. Os gêmeos paulistanos de 34 anos são hoje, sem dúvidas, os melhores artistas em atividade da nona arte brasileira. Desde o início da década passada, quando as histórias líricas do fanzine “10 Pãezinhos” ganharam as livrarias, eles não pararam mais de ser aclamados e premiados.

Desde o início dá para notar que a carreira deles estava traçada. Moon e Bá possuem não apenas habilidade rara para contar histórias, mas um grau de sensibilidade quase nunca encontrado entre os quadrinistas da atual geração não apenas do Brasil, mas em todo o globo. Em “O Girassol e a Lua”, a metáfora que encerra a trama – a flor que desistiu de perseguir o sol porque conheceu a beleza lunar – ilustra uma história de amor e suspense ao estilo Frank Miller. Em “Meu Coração, Não Sei Porque”, um casal adulto que se ama desde a infância volta a serem crianças após o primeiro beijo. Já em “Daytripper”, o lançamento mais recente deles, contam a saga de Brás, um escritor de obituários que revisa a própria vida ao longo da narrativa. Dá para contar nos dedos a quantidade de artistas que evocam esses temas e sensações com maestria nas HQs atuais.

Dona de prêmios como o Ângelo Agostini, HQ Mix, Jabuti, Harvey e Eisner, a dupla concedeu essa entrevista exclusiva ao blog, na qual fala bastante sobre “Daytripper” e os recentes passos na carreira.

QS – A carreira de vocês está em ascensão tanto em receptividade quanto em qualidade artística. E as críticas a “Daytripper” têm sido bastante positivas. Qual é a autoavaliação de vocês sobre esse trabalho?

Fábio – Nós estamos muito felizes com o resultado do Daytripper. Gostávamos da idéia que originou tudo isso, mas a história em si ficou melhor do que esperávamos. Aprendemos muito com a experiência e estamos muito contentes com o retorno dos leitores, dos editores e dos artistas em relação à nossa história.

QS – Como foi trabalhar em “Daytripper”? Houve alguma pesquisa para o roteiro ou desenhos, alguma mudança na técnica ou algo diferente em relação às demais obras de Moon e Bá?

Fábio – Fizemos mais pesquisa em relação aos assuntos tratados na história que fugiam da nossa experiência pessoal e que, de alguma forma, retratavam uma certa realidade. Lemos muitos obituários, nacionais e internacionais, procurando entender um pouco mais essa profissão. Fomos viajar a Salvador para pesquisar um dos capítulos do livro. Fizemos uma pesquisa visual muito grande para retratar os lugares e as pessoas de uma maneira mais sincera, mesmo que tomando as liberdades poéticas que a ficção nos permite.

Gabriel – Foi muito diferente trabalhar com um editor durante a confecção dos roteiros. Sempre entregamos histórias prontas, e essa foi feita aos poucos, em capítulos, e nesse processo aprendemos muitos sobre como escrever roteiros que o editor vai ler, que o colorista e o letrista vão ler, e nesse modo de produção, muito mais cuidado foi colocado no roteiro, um cuidado que anteriormente era mais intuitivo, ficava somente para a hora do desenho da página.

QS – Em um entrevista, li que a premissa da história de “Daytripper” veio de uma bala perdida que quase matou Gabriel. No entanto, senti que essa ideia de repetir a morte e refazer sua vida tem um quê do filme “Feitiço do Tempo”. Também foi uma inspiração?

Gabriel – Pensar no “Feitiço no Tempo” é o chavão que passa pela cabeça de todo mundo quando pensam na nossa história, mas o filme não foi uma inspiração.

Fábio – Você leu a entrevista direito? Não teve bala perdida. Teve o pensamento “e se eu fosse atingido por uma bala perdida?”

(Enviei essa resposta a Fábio: “De fato li de relance e interpretei errado o trecho da entrevista que dizia: ‘Costumávamos morar em um prédio próximo a uma pequena “favela” e imaginei se um conflito acontecesse lá, uma bala perdida poderia ver pela minha janela e me matar de repente, sem explicação ou razão, simples assim’. Peço desculpas. De qualquer forma, a possibilidade da bala perdida e dessa imprevisibilidade entre a vida e a morte é o que de fato norteou a minha pergunta”)

QS – Desde “10 Pãezinhos” que eu imagino que vocês se destacaram como artistas porque, além do talento evidente, estão trazendo uma carga de subjetividade e existencialismo poucas vezes vistas nos quadrinhos, tanto no Brasil quanto no Ocidente como um todo. Além disso, o cerne de suas histórias é bastante universal, evitando – propositadamente ou não – regionalismos comuns nos autores brasileiros. Concordam com essa visão dos fatos?

Fábio – Acho que temos uma visão bem definida do que nos interessa retratar e discutir e que, em muitos aspectos, ela é diferente do que se tem produzido em Quadrinhos. São temas que lemos em livros, vimos em filmes e vemos ao nosso redor, e temos vontade de colocar isso nos Quadrinhos. Acho que essa clareza no nosso trabalho o destaca, mas também é difícil fazer o que você acha que ainda não foi feito. Acho que, nesse sentido, é justamente o regionalismo que nos destaca, pois é a experiência pessoal, nacional, que confere a sinceridade emocional que sustenta o trabalho.

QS – Vocês também foram convidados pela Panini para supervisionar o lançamento de “Daytripper” no Brasil. O que pode mudar em relação à publicação original da DC/Vertigo?

Gabriel – Queremos que a publicação aqui leve em conta as diferenças entre os mercados. O mercado americano de gibis vive em função dos gibis mensais de 22 páginas. O brasileiro, não. Assim, não adianta lançar a revista aqui como uma mini-série.

QS – A introdução de “Daytripper” foi escrita por Craig Thompson. Eu li “Retalhos” e de fato achei que tem muito em comum com as histórias de vocês. Que outros quadrinistas vocês identificam como similares ao seu estilo?

Fábio – Olha, acho que nos identificamos com vários quadrinistas por diversos motivos diferentes: o Terry Moore, o Paul Pope, o Cyril Pedrosa, a Becky Cloonan.

Gabriel – Hoje em dia me identifico mais com a atitude de um quadrinhista, o jeito que ele encara seu trabalho, do que com seu estilo em si. O compromisso do Eduardo Risso, a seriedade do Brian Azzarello, o amor pelos Quadrinhos da Becky, a naturalidade que o Gipi e o Cyril Pedrosa passam em seus personagens. São características que admiro e busco alcançar no meu trabalho.

QS – O que vocês têm achado da migração cada vez maior do mercado de quadrinhos para as livrarias e menos para as bancas de revistas? É um viés elitista, como criticam muitos?

Gabriel – Não é elitista, não é só uma questão do preço da revista. Tem mais banca do que livraria? Tem. Mas a banca de hoje não é a banca de antigamente, tem cada vez mais produtos que competem pela atenção do consumidos, e os quadrinhos ficam cada vez mais marginalizados.

Fábio – A mentalidade da banca é a de vender produtos de consumo rápido, descartáveis. Você lê o jornal e joga fora. Você lê a revista semanal e joga fora. Você compra um sorvete e joga o palito fora. As revistas em Quadrinhos surgiram nesse mundo, surgiram do jornal, e foram por muito tempo encaradas com essa mesma mentalidade de consumo descartável. Acho que as histórias em Quadrinhos estão indo para as livrarias porque não são tão descartáveis assim (ou pelo menos não querem ser). Se você não alcança o seu público na banca no mês do lançamento, seu gibi vai para o lixo, enquanto seu gibi na livraria fica na prateleira da livraria por meses, anos, pelo resto da vida se tudo der certo.

QS – Uma pergunta clichê, mas necessária: quais são os seus próximos projetos?

Gabriel – Por enquanto, estamos trabalhando no terceiro arco de histórias do “Casanova”, escrito pelo Matt Fraction e publicado pela Icon nos Estados Unidos. Enquanto isso, continuamos fazendo nossa tira semanal na Folha, a “Quase Nada”.

Fonte: http://quadrisonico.wordpress.com

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