Dança, sexo e reinado pop

Te cuida, Lady Gaga. Britney Spears, 29, é cinco anos mais velha do que você e tem dois filhos, mas não parece disposta a abrir mão do título de sucessora de Madonna no trono feminino da música pop. O bastão real, inclusive, foi passado pela rainha-mãe há alguns anos, em uma entrevista.

Entre Circus (2008) e o novo e ótimo disco de Britney, Femme fatale (Sony), que chega às lojas dia 29/3 e vazou na internet no último fim de semana, Lady Gaga tomou o show business de assalto com uma impressionante reciclagem de ideias pop, polêmicas e uso inteligente do YouTube como mídia promocional. Com ela, cujo novo álbum sai dia 23 de maio, o videoclipe ganhou um novo fôlego.

Mas Britney Spears não nasceu ontem: tem mais tempo que a “rival” na arte de lidar com o circo do entretenimento. Não por acaso, cantou com ironia em Piece of  me (2008): “Eu sou a Miss Sonho Americano desde os 17 anos/ Não importa se eu estou em cena/ Ou fugindo para as Filipinas/ Eles ainda vão colocar fotos do meu traseiro na revista/ Você quer um pedaço de mim?”.

Na época de Piece of me, a ex-garotinha da Disney –  ela começou a carreira apresentando o Clube do Mickey, na TV – ainda vivia os rescaldos de uma fase de turbulências pessoais. Em um espaço de 12 meses, entre 2006 e 2007, Britney protagonizou a maior sucessão de escândalos de uma estrela pop dos EUA naquela década.

A cantora se separou do ex-dançarino e aproveitador Kevin Federline, raspou a cabeça, internou-se numa clínica de desintoxicação, foi vista numa balada sem calcinha, perdeu a guarda dos filhos, atacou um fotógrafo e, acima do peso, fez uma aparição constrangedora numa cerimônia de premiação da MTV americana.

Diante de um quadro desse, a carreira de Britney parecia caminhar para o brejo. Porém, como nunca é bom duvidar 100% da capacidade de um fenômeno pop que vendeu 70 milhões de álbuns e cinco milhões de DVDs em menos de dez anos de estrada, a cantora se reabilitou com o disco Blackout (2007), no qual ironizou a mídia, a sociedade americana e sua vida. Com o pulso forte do pai administrando sua vida e seus negócios, ela também entrou nos eixos e abandonou os escândalos.

Sucessor de Circus (2008) e seu sétimo álbum, Femme fatale é ainda melhor do que Blackout, até então o ponto mais alto da discografia da pop star. Britney, como a maioria dos artistas de sua geração, sempre depende de produtores para fazer ou não um bom trabalho. Ao longo dos últimos anos, ela soube cercar-se de um talentoso grupo de produtores americanos e europeus, criando assim sua turma.

Nomes como Dr. Luke,  Max Martins e os suecos Christian Karlsson e Pontus Winnberg conseguiram criar uma identidade sonora dançante e moderna para Britney Spears, sem esquecer da sua vocação pop. Diante do avanço do electro pop, contudo, a cantora e sua trupe de produtores subiram o nível do jogo e tingiram quase todas as 12 canções de Femme fatale de tons mais agressivos e até sombrios, absorvendo influências dos sons subgraves e intensos do dubstep, subgênero eletrônico nascido na Inglaterra.

Não por acaso, Ke$ha, um dos grandes sucessos da temporada 2010 com uma sonoridade electro pop meio suja, assina a primeira canção do disco: Till the world ends. É uma daquelas músicas que trazem o DNA de sucesso para as pistas de dança de todo o planeta.

Líder e vocalista do Black Eyed Peas, will.i.am compôs para Britney Spears e com ela divide os vocais de Big fat bass. Como o nome sugere, é uma música com baixão estourando e influência do hip hop.

Big fat bass é um monstro. É malvada, provocativa, uma evolução para o próximo nível. Tem uma batida.. e ela canta de uma forma inovadora. Algo que precisamos hoje em dia”, afirma will.i.am sobre a parceria, que é superior a qualquer coisa gravada pelo Black Eyed Peas em seu último e fraco trabalho: The beginning.

Seja na vibração, seja nas letras, Femme fatale inspira dança e sexo o tempo todo, o que fica claro no videoclipe de Hold it against me. Aliás, um vídeo inferior à música e com Britney Spears, infelizmente, mostrando que já não dança tão bem como antes – ou, então, precisa trocar de coreógrafo.

As inovações sonoras da artista não devem assustar os fãs mais acostumados ao seu pop radiofônico. O álbum não tem baladinhas, mas a habilidade comercial continua intacta, basta sentir o gostoso assovio à la house de David Guetta no arranjo de I wanna go ou o toque folk dançante de Criminal, que parece saído de Music (2000), disco de Madonna. No resumo da ópera, Femme fatale é cheio de novos hinos para os fãs de Britney.

***

* Matéria publicada originalmente no jornal CORREIO, dia 15 de março de 2011.
Fonte: http://www.correio24horas.com.br/blogs/pop-head/

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