Uma Artista no Divã

Obra de Louise Bourgeois

Quem ouviu falar ao menos uma vez de Louise Bourgeois (1911-2010) certamente associa a artista franco-americana a um universo denso e sofrido. E não deixa de ter razão. Quanto mais os estudiosos se aprofundam em seu legado, soa mais adequada – e menos exagerada – uma de suas frases bem conhecidas: “The pain is the business that I am in”, algo como: “A dor é o meu negócio”. Como se não bastassem a biografia – que inclui uma adolescência debaixo do mesmo teto com o pai, a mãe e uma amante do pai – e as obras, que podem ser vistas como o fruto de um processo de catarse da artista, acaba de vir à luz um conjunto de escritos inéditos. Os rascunhos provam como ela canalizou intensamente as próprias angústias, medos e fantasmas para a arte.

As cerca de mil folhas encontradas pelo assistente Jerry Gorovoy em seu apartamento, no bairro boêmio nova-iorquino do Chelsea, e preenchidas em sua maior parte entre as décadas de 1950 e 60, incluem reflexões, registros de sonhos, anotações para futuras esculturas e correspondências. Editadas pelo curador Philip Larratt-Smith, as páginas juntam-se aos já conhecidos diários que a artista manteve durante toda a vida. Colocados lado a lado, os escritos evidenciam o quanto a psicanálise foi determinante em sua trajetória. De 1952 a 1967, Louise consultou-se com o doutor Henry Lowenfeld, ex-aluno de Freud, quatro vezes por semana, em sessões que duravam uma hora. Foi levada ao divã depois da morte do pai, em 1951, com quem mantinha um relacionamento bastante complicado. Por dez anos, Louis Bourgeois teve um caso com Sadie, a professora de inglês de seus filhos, que morava na casa da família. A artista, que descobriu a história aos 11 anos de idade, jamais superou a mágoa. Ao mesmo tempo, também jamais deixou de nutrir pelo pai uma admiração e um amor que, em dado momento, fizeram com que concluísse nunca haver de fato passado da fase do complexo de Édipo.

As recém-descobertas confissões de Louise são tão fundamentais para compreender ainda mais seu legado – misturado invariavelmente à sua intimidade – que Larratt-Smith as compara em importância às cartas deixadas pelo holandês Vincent van Gogh (1853-1890). E por isso a exposição Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido, que chega neste mês ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, depois de estrear na Fundação Proa de Buenos Aires, é tão significativa. Com curadoria do próprio Larratt-Smith, trata-se da primeira grande individual de um dos mais emblemáticos nomes da arte do século 20 a passar pela América do Sul (depois de São Paulo, a mostra segue em setembro para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro). A exposição foi idealizada no calor da leitura desses escritos e inclusive acompanha a publicação de parte deles. Conferir as anotações e poder observar simultaneamente as 112 obras da artista – entre desenhos, objetos, pinturas, esculturas e instalações produzidos de 1942 a 2009 – leva a uma conclusão forte: sem as sessões de psicanálise, talvez Louise não conseguisse chegar ao resultado plástico de algumas de suas criações mais icônicas.

SERVIÇO:

Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido. Instituto Tomie Ohtake (r. Coropés, 88, Pinheiros, São Paulo, SP, tel. 0++/11/2245-1900). De 8/7 a 28/8. De 3ª a dom., das 11h às 20h. Grátis.

Espetáculo Louise Bourgeois – Faço, Desfaço, Refaço, de Denise Stoklos. Instituto Tomie Ohtake. Dias 23 e 24, às 20h. Os ingressos gratuitos devem ser retirados no local entre os dias 12 e 22.

Fonte: Revista Bravo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s