Ney Matogrosso teme gravar música com a palavra masturbação: ‘os brasileiros estão muito caretas’

Ney Matogrosso / Foto: Leonardo Aversa - Agência O Globo

Ney Matogrosso / Foto: Leonardo Aversa - Agência O Globo

RIO – A polêmica começou quando, semana passada, em entrevista ao jornalista Cadão Volpato no programa “Metrópolis”, na TV Cultura de São Paulo, o cantor Ney Matogrosso declarou que não sabe se vai ou não vai incluir no seu próximo disco a canção “Cinema Íris”, do músico Luís Capucho, por causa da frase “Enquanto homens masturbam-se na neblina do cinema”.

Nas palavras do Ney, “os brasileiros estão muito caretas” e ele não pretende surtar os ouvidos mais recatados: “Eu fui selecionando as músicas por esse caminho… Jards Macalé, Itamar Assunção e tem o Luís Capucho, um compositor extraordinário. Só que ele tem uma temática muito explícita, esse talvez seja o grande problema. A música dele que está comigo chama-se “Cinema Íris”, e eu adoro.

Na entrevista, Ney contou que tem feito uns testes com a letra para ver o que as pessoas acham. “Mostro a música para uma pessoa bem doida e ela diz: ‘Nossa, você vai ter coragem de cantar isso?’; então, eu pego uma pessoa bem careta e ela diz ‘Nossa, nem achei tão pesada assim’. Não dá para ter parâmetro.”

Para Ney, a música “é muito excitante. Não dá para tirar a frase. E eu não queria que fosse um disco proibido, não quero assustar ninguém”.

– Desde o início do ano, em praticamente todas as suas entrevistas, Ney dizia que estava gravando um disco com os malditos da música e me incluiu nessa turma – conta Capucho.

Para o autor, o Ney está apenas criando um clima em torno do lançamento.

– Tenho certeza de que ele vai gravar porque ele sempre foi ousado. Quando surgiu nos Secos & Molhados, foi de uma ousadia enorme. E de lá para cá, continuou assim. Até lançou um disco estampando sua foto nu na capa. E apesar de se dizer tímido, o trabalho dele não é.

“Jean Genet da canção popular”

“Cinema Íris” será o título do próximo CD, ainda em produção, do capixaba Luís Capucho, de 49 anos, morador de Niterói, e considerado o mais maldito entre os malditos da canção brasileira. Capucho tem um CD lançado (“Lua singela”) e composições gravadas por Daúde, Cássia Eller, Marcos Sacramento, entre outros. No final dos anos 60, Capucho lançou o livro “Cinema Orly”, vencedor do Prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos em 2005.

– É um livro bem procurado por estudantes de Letras que fazem monografias sobre questões dos gays. Como é um livro muito querido, acabei querendo fazer uma dobradinha na música, e assim nasceu “Cinema Íris”, que é no mesmo viés. Eu sempre digo que “Cinema Íris” é a irmã musical do livro “Cinema Orly” – explica.

Luis Capucho, compositor - Foto Leonardo Aversa / Agencia O Globo

Maldito? Quando lançou a música “Mamãe me adora”, na década de 90, Capucho foi batizado de “o Jean Genet da canção popular” por um jornal paulista. (“Eu também sou feliz com homens/como os que amou mamãe/homens que são cheios de tensão/como diabos/homens que são como aparição/como Nossa Senhora”).

– As pessoas sempre falam da minha explicitude. “Cinema Íris” é uma música ambientada num cenário erótico que mistura homossexuais e hetorossexuais. É para um ambiente mix – brinca o autor, formado em Letras e professor aposentado pela Universidade Federal Fluminense.

Apaixonado pela mãe, que morreu no carnaval de 2009, Capucho é um sobrevivente. Menino pobre, filho bastardo de um fazendeiro dono das terras onde a mãe trabalhava, ele enfrentou as sequelas de um espancamento e a Aids, que contraiu em 1996.

A possibilidade de ter sua música gravada por Ney Matogrosso é um estímulo. “Lua singela”, seu primeiro CD, não teve o reconhecimento que ele desejava. Hoje, os amigos torcem para que “Cinema Íris”, em análise na Biscoito Fino e na Dubas, tenha outro destino. Capucho está ansioso, mas seu coração se aquieta quando ele lembra dos conselhos da mãe Luiza: “Não fique preocupado com isso, filho, o que tem que ser, tem força. O que tem que ser é”.

Fonte: O Globo

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