Exposição de Lucian Freud no Brasil

Exposição apresenta pela primeira vez no Brasil seis telas e 44 gravuras do britânico Lucian Freud, que retratava os corpos em sua realidade nua e crua
Após a Segunda Guerra Mundial — os cadáveres empilhados nos campos de concentração, homens e mulheres calcinados nos ataques nucleares contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki —, a maneira como o corpo passou a ser visto mudou radicalmente. Há dois artistas britânicos que se tornaram paradigmas na captação desse “espírito de época”, algo destroçado e confuso, em especial na Europa que tentava se reconstruir depois dos conflitos. Um é Francis Bacon (1909-1992), com sua paleta rala e deformação das figuras humanas. O outro é Lucian Freud. Nascido em Berlim em 1922 e neto de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, ele se naturalizou britânico após fugir do nazismo com a família e se instalar em Londres. Sua primeira exposição, em 1944, possuía ecos surrealistas, que seriam abandonados pouco mais tarde.
Arte-de-Lucian_Freud_1

* A gravura Lord Goodman in His Yellow Pyjama (Senhor Goodman em Seu Pijama Amarelo, 1987)
O público brasileiro poderá ver trabalhos de Freud a partir de 28 de junho, quando Corpos e Rostos chega ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). A mostra exibe seis telas e 44 gravuras. Reúne, ainda, 28 fotografias, que trazem a atmosfera íntima do artista em seu ateliê. Apesar da quantidade reduzida, a pintura estará bem representada, especialmente graças a Dead Cock’s Head (Cabeça de Galo Morto, 1951) e Naked Girl with Egg (Menina Nua com Ovo, 1980-81), esta mais típica da produção de Freud, que lançava um olhar muito particular sobre as mulheres.
“Ao retratar os corpos em sua realidade nua e crua, dotando a imagem de carnalidade, o pintor tornou-se um dos mais importantes do pós-guerra”, avalia o também pintor Marco Giannotti, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Mesmo no século 21, as criações de Freud provocam. Exemplo disso é a conversa que o crítico Teixeira Coelho, curador do Masp, teve com o representante de uma tradicional empresa patrocinadora da instituição. “Ele me disse que não gostaria de ver trabalhos do artista itinerando por um espaço mantido pela empresa em outra cidade.” O motivo, acredita Coelho, é que a obra do britânico exala um “humanismo incômodo”.

Olhares potentes
Sobre a exposição, o curador defende que, à semelhança das pinturas, as gravuras representam bem a trajetória de Freud. “Os olhares de Girl with Fig Leaf (Menina com Folha de Figo, 1948) e Ill in Paris (Doente em Paris, 1948), por exemplo, continuam potentes.” Ele conta que as negociações para a vinda das obras começaram em 2010. Um ano depois, o artista morreu, o que elevou os preços de suas criações. Consequentemente, as despesas dos interessados em exibi-las aumentaram muito, sobretudo o seguro. “Se não estivéssemos cuidando dos detalhes para trazer os trabalhos desde 2010, a mostra seria inviável hoje”, afirma Coelho. Estima-se que a exposição no Masp custará cerca de R$ 1 milhão.

* A foto Naked Admirer (Observadora Nua, 2005). Trabalho que mostra o ser humano sem idealizações
Segundo o crítico, ainda é prematuro apontar herdeiros do estilo de Freud. Ele observa, porém, correspondências entre a pintura do britânico e a de Paula Rego, portuguesa que se radicou no Reino Unido. “Os dois nasceram em outros países, migraram para a Inglaterra, trabalham fortemente o figurativo e, por vezes, usam a alegoria.” Já o artista paulistano Rodolpho Parigi, que também tem no corpo humano o foco dos seus desenhos, enxerga em Jenny Saville “uma sucessora” de Freud. A britânica despontou em meados dos anos 90 e logo chamou a atenção por suas representações em larga escala de mulheres nuas e deformadas.
Outro pintor de São Paulo, Rodrigo Andrade, sustenta que Freud se inscreve na tradição artística do Reino Unido, mas de um modo bastante particular. “Ele incorpora certo aspecto escatológico muito presente na arte britânica. Entretanto, era exceção em um contexto que deixava de privilegiar a pintura. Menos estilizado do que Bacon, atinge uma intensidade ainda mais alta. Além disso, resgata a tradição do nu, da figura e do retrato na pintura ocidental.” De acordo com o paulistano, a singularidade de Freud revela-se igualmente na relação que ele estabelece entre a obra e o espaço onde a produz. “O ateliê é retratado em suas telas assim como o corpo humano.”

Angústias
Rodolpho Parigi lembra-se bem de quando conheceu os trabalhos do britânico, por volta de 1998. “À época, eu fazia desenho de observação em aulas de modelos vivos. E existia um papo de que retratar o corpo era algo antigo, ultrapassado. Mas, tão logo me deparei com os quadros do pintor, tudo mudou. Tive certeza de que não existia essa ideia de ultrapassado.”
Na opinião de Parigi, Freud transforma a pele em “camadas de sensibilidade pictórica”, principalmente nos desenhos. “Ele usa a linha para construir massas, nervos e músculos. Cria, assim, uma superfície de tensão, que expressa com extrema originalidade as angústias da existência.”

Mario Gioia é curador e crítico de arte.

RESUMO:
A exposição: Lucian Freud: Corpos e Rostos.
Local: Museu de Arte de São Paulo (Av. Paulista, 1578, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3251-5644).
Período: De 28/6 a 13/10. De 3a a dom., das 10h às 18h; 5a, das 10h às 20h.
Ingresso: R$ 15.

Fonte: Revista Bravo

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